sábado, 28 de julho de 2012

Rainer Maria Rilke (2)


Soneto a Orfeu n. XXII/I

Em nós a pressa mora.
Mas do tempo ao passar
tal bagatela ignora,
entre o que tem a vagar!

Tudo que corre agora
em breve há de acabar:
só o que custa e demora
nos pode consagrar.

Jovem, procura e ousa
– não a velocidade,
o voo tentador...

não, pois tudo repousa
no Eterno: claridade
e sombra, livro e flor.


(in Poemas / Rainer Maria Rilke, trad. Geir Campos, editora Luzes no Asfalto, São Paulo, 2010)

Rainer Maria Rilke

 Soneto a Orfeu n. IX/I
 
Só quem a lira ao sol-pôr
já ousou dedilhar
pode o infinito louvor
sentir e cantar.

Só quem ousou comer, já,
a papoula com
os mortos – não perderá
mais o suave tom.

E se o reflexo no lago
a imagem contorna,
só ele a descobre.

Nesse reino dúbio e vago,
toda voz se torna
imortal e nobre.


(in Poemas / Rainer Maria Rilke, trad. Geir Campos, editora Luzes no Asfalto, São Paulo, 2010)


J. S. Bach (2)



Prelúdio em si bemol menor do Livro I do Cravo Bem Temperado, de J. S. Bach.
O arranjo para cordas é de Villa-Lobos.

Esta é a versão pianística da mesma obra (acrescida da respectiva Fuga):




piano, Friedrich Gulda (1930-2000)
execução de 1972
(em minha opinião, um dos pianistas mais criativos que já houve)

sábado, 14 de julho de 2012

Autorretrato ante o espelho quebrado


Octavian Paler


[Autoportret într-o oglindǎ spartǎ]


Quando finalmente seriam os sonhos mais tangíveis, dei-me conta: também as paixões envelhecem. Não sou capaz de assegurar minhas próprias vontades. Não me faltaram, decerto, metas falsas e entusiasmos pueris. Jamais minha imaginação concebeu um mundo sem ti. Ainda que não assumas o comum e paranóico orgulho de imaginar-te ao centro do mundo, algo sempre duro de admitir, faltou-te inteligência ou capacidade para aceitar que ninguém ensina o que quer que seja, exceto retratos amarelados, velhas fotos lançadas à lixeira tão logo partas. Aos outros, somos marionetes bufas, personagens melhores [ou atuantes patéticos]. Todas as certezas que já tive esvaíram-se, sem ressalva alguma. Também as alegrias passadas assumem tom melancólico na lembrança. O passado é vivo, integra o presente e o influencia na proporção do conflito diário. “Daqui a pouco” transforma-se em “mais tarde”. Comecei a perceber que, de atores em cena, tornamo-nos figurantes. E a memória revolve-se em perdão. A lembrança tem um dom estivo, dá-nos o verão como estação de destino. Hoje, sobram-me dúvidas; fito o céu apenas com a esperança de um guarda-chuva, como todos aqui em Bucareste, que, sob nenhum lirismo, admiram e respiram fumaça [quando chove, inevitavelmente pisamos em poças múltiplas]. Associando-me a outros, a atmosfera, de tão dura, não me permite integrar, e acabo sempre só. Porque busco alguma coisa [pouca coisa mas algo] e sou errante num mundo de tudo que te dá nada. A humanidade tomou o lugar do próprio homem. Hoje, preciso apenas de um muro para levantar e, por não o encontrar, eis o desespero. Uma vida medíocre é justificável. A mediocridade das ilusões, todavia, é inescusável. E continuamos sonhando, mais e mais [sem limites]. Por quê? Talvez, possa-me abandonar sobre a imagem quebrada do espelho, sem o temor do pecado. Soube que há uma língua atualmente falada por um homem apenas. Como discutir? O mistério mais sutil é a banalidade. Nesse cotidiano, guardo contigo meu segredo supremo. Seria a criação do universo uma obra banal? As estrelas apontam, todas as noites, nossa morte [ou vida constelada emudecida]. Deus criou o homem e confiou ao diabo a tarefa do desfazimento. O diabo não tem limites. Seria a linguagem o extremo dessa falta?

Atentei-me demais ao detalhe, perdi o foco?
[vou reescrever]


(trad. livre joão monteiro)

(in Autoportret într-o oglindǎ spartǎ, Ed. Albatros, Bucareste, 2007)

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Lucian Blaga (7)

POEZIA

Un fulger nu trăieşte
singur, în lumina sa,
decât o clipă, cât îi ţine
drumul din nor până-n copacul
dorit, cu care se uneşte.
Şi poezia este - aşa.
Singură-n lumina sa
ea ţine pe cât ţine:
din nour până la copac,
de la mine pân' la tine.

...

POESIA

O raio apenas dura,
em seu lampejo,
um momento,
senda passageira entre nuvem e árvore
rota traçada por essa união.
Assim é também a poesia.
Solitária em sua luz,
ela se basta:
da nuvem à árvore,
de mim a você.


(trad. joão monteiro)

DIGA NÃO!



DIGA NÃO À MARGALIGNA,

COMA MAIS MANTEIGA!

José Paulo Paes (6)


 HINO AO SONO


sem a pequena morte
de toda noite
como sobreviver à vida
de cada dia?


(in Poesia completa, Companhia das Letras, São Paulo, 2008)