(de explicações das casas)
Os homens descansam na sombra
Pensam em silêncio
Na meditação do pássaro.
Por dentro só o rumor
Das enxadas os afasta.
As mulheres esfregam o soalho
Interrogam em silêncio
A meditação dos homens.
Por dentro só o rumor
Das vassouras os comove
E brancas as casas.
As casas.
(in POESIA, Assírio & Alvim, Porto, 2012)
domingo, 8 de setembro de 2013
Daniel Faria (4)
(de explicações das casas)
Não fui margem sem outra margem onde ligar os braços
Mas fui tempo solto para entrançar os meus cabelos
E o movimento dos teus pés descalços
Não fui a solidão inteira nem reclusa
Para o único repouso entre o silêncio
Nem fui a flor exausta defendendo-se
De toda mão que a quis despetalar
Não fui a casa que a si mesma se abrigou
Nem a morada que nunca se acolheu
Mas o tempo a pedir que me deixasse
Naquilo que não fui vim encontrar-me
E sempre que te vi recomecei
(in POESIA, Assírio & Alvim, Porto, 2012)
Não fui margem sem outra margem onde ligar os braços
Mas fui tempo solto para entrançar os meus cabelos
E o movimento dos teus pés descalços
Não fui a solidão inteira nem reclusa
Para o único repouso entre o silêncio
Nem fui a flor exausta defendendo-se
De toda mão que a quis despetalar
Não fui a casa que a si mesma se abrigou
Nem a morada que nunca se acolheu
Mas o tempo a pedir que me deixasse
Naquilo que não fui vim encontrar-me
E sempre que te vi recomecei
(in POESIA, Assírio & Alvim, Porto, 2012)
sábado, 10 de agosto de 2013
Marin Sorescu (5)
Mai
mult ca perfectul
Pe
spatele aripii este notat
Mai
mult ca perfectulZborului.
Pe
spatele peştelui e desenat
Înotul
viitorului.
Acolo
unde credeam că se termină,
Lucrurile
revin asupra lor;Faţa văzută e doar o ciornă.
De ce să fim pesimişti
În legătură cu stingerea ochilor?
Pe spatele lor
Natura şi-a notat
O idee şi mai îndrăzneaţă
Despre orbire.
(Moartea
ceasului, 1966)
**
O mais perfeito
É
no dorso das asas
Que
se contorna o mais perfeitodos voos.
É
em sua cauda que os peixes impulsionam
o
nado novo.
Quando os projetos enfim acabam
Principia a execução;
A face das coisas é esboço, apenas.Principia a execução;
Por que a relutância
em cerrar os olhos?
É no dorso de suas órbitas
Que a natureza programa
A mais ousada das constatações
Sobre a cegueira.
(A
morte das horas, 1966)
(trad. joão monteiro)
Marin Sorescu (4)
Jurnal intim
Puţin
îmi pasă mie
De
noutăţile voastre.Eu vin cu noutăţile mele.
(Poezii,
1996)
**
Diário
íntimo
Quase nada a teu respeito.
Ainda assim, trago-te minhas últimas notícias.
(Poesias,
1996)
(trad. joão monteiro)
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
Alberto Caeiro (5)
Há metafísica bastante em não pensar nada.
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.
Metafísica? Que metafísica tem aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de ter fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber o que não sabem?
"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido ínfimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.
Pensar no sentido íntimo das cousas
É, acrescentando, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta adentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)
Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e o sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu lhe obedeço,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda hora.
terça-feira, 6 de agosto de 2013
Alberto Caeiro (4)
Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta
Em que as cousas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Por que sequer atribuo eu
Beleza às cousas.
Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer cousa que não existe
Que eu dou às cousas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então por que digo eu das cousas: são belas?
Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as cousas,
Perante as cousas que simplesmente existem.
Que difícil ser próprio e não ver senão o visível!
(11 de março de 1914)
Alberto Caeiro (3)
Li quase duas páginas
Do livro dum poeta místico,
E ri como quem tem chorado muito.
Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.
Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.
Mas flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram cousas vivas,
não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar,
Os rios seriam homens doentes.
É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.
Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era Natureza.
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