sábado, 2 de julho de 2011
Boris Cyrulnik / Edgar Morin
Você disse que a sociedade alimenta-se da morte de seus indivíduos. Igualmente, não podemos dizer que uma sociedade nutre-se da morte de suas teorias? Venerar uma idéia é o modo mais seguro de fazê-la morrer. A pretexto de a repetir, nós a transformamos em estereótipo, de tal maneira caricaturada que poderíamos recitá-la numa final desportiva entre França-Inglaterra. Ao contrário, vivenciar uma idéia pressupõe o debate, a tentativa de combate de seus elementos componentes.
(in Dialogue sur la nature humaine / Diálogos sobre a natureza humana, éditions de l’aube, 2000, p. 45-46)
imagem: www.intransfer.com/fotos/veneza2/
Willy Corrêa de Oliveira
Apocalipse no fundo do quintal
Já havia principiado a noite quando atravessei a cozinha e transpassei a porta que se abria para o patamar de onde descia a escada para o quintal bem mais abaixo de que o corpo da casa, e olho na direção do fundo do quintal, para além do muro e acolá, nem longe nem perto, vejo uma estrela deitada. Tenho que era noite de lua cheia. É certo que a estrela iluminava adormecida, o chão, a terra, o terreno vazio logo após o muro do meu quintal como sua cama e não o céu como eternamente havia acontecido desde o início dos tempos. Não recobro o que andava a fazer por ali no patamar da porta da cozinha, se me dirigia ao quintal por qualquer coisa, ou o que, quando vi a estrela no chão, adiante no terreno livre depois do muro do quintal onde se mora em criança. Não era um sucesso usual, um fato corriqueiro: exaltado, em glória, pânico, júbilo, desobrigo-me do que teria ido fazer e retornei para o interior da casa em estado de choque, feliz abalado, e sem mais demoras vim atender ao chamado (já impaciente) para que fosse me deitar. Que lavasse as mãos, pés, escovasse os dentes. “E não se esqueça de cuidar pra não fazer xixi fora da bacia.” Ladainhas para o ofício noturno. Os palavrórios não me azucrinaram. Fui ao cumprimento das ordens indiferente sem relatar nada do que vira pra ninguém. Na transcendência da beatitude, do enleio sutil e frágil em que me transbordava não tinha prumo para me comunicar com nenhum humano naquela hora. Só me era dado o silenciar, o ativar-me veemente no gozo. Uma estrela do céu, ali vizinha, deixar-se pousada no chão, adormecida, assim a uma corridinha de casa, manifesta. Sem mais era ir para cama (obediente) e calar e dormir tácito emudecido sem bulício, nem o mais mínimo alarido para que ninguém desfizesse o inescrutável, inesperado, o inerme sortilégio da estrela em abandono, tão cerca. Amanheci às pressas. E misteriosamente saí à procura de minha estrela no chão, dormida ao relento, em depois do contorno da rua de casa. Vis-à-vis do fundo, pertinho. O terreno, baldio, se espichava, creio que até ao mar mais distante. Que horror insípido: ela não mais se achava à vista. Em toda a volta, olhei, não se encontrava. Não se encontrava. Não a divisaria mais, sabia-o, sentia, e desisti: do prosseguir em sua busca porque o local era perigoso em excesso, com cacos de louça, vidros asquerosos, assassinos, latas cortantes (enferrujadas até ao tétano), guaiamus ferozes, e teria que ter me aventurado em longa caminhada até a praia e o mar bravio longe.
Mas não maldigo. Não escrevo: “Ah! um urubu pousou na minha sorte.” Nunca. Eu que jamais havia (sequer) entressonhado que uma estrela do firmamento viesse, quietinha, se pôr ali pouco além do muro do nosso quintal, sem ruídos, para mim. Por uma noite, em criança, tive uma estrela que brilhou pela minha vida inteira.
(in Passagens, Ed. Luzes do Asfalto, São Paulo, 2008)
Já havia principiado a noite quando atravessei a cozinha e transpassei a porta que se abria para o patamar de onde descia a escada para o quintal bem mais abaixo de que o corpo da casa, e olho na direção do fundo do quintal, para além do muro e acolá, nem longe nem perto, vejo uma estrela deitada. Tenho que era noite de lua cheia. É certo que a estrela iluminava adormecida, o chão, a terra, o terreno vazio logo após o muro do meu quintal como sua cama e não o céu como eternamente havia acontecido desde o início dos tempos. Não recobro o que andava a fazer por ali no patamar da porta da cozinha, se me dirigia ao quintal por qualquer coisa, ou o que, quando vi a estrela no chão, adiante no terreno livre depois do muro do quintal onde se mora em criança. Não era um sucesso usual, um fato corriqueiro: exaltado, em glória, pânico, júbilo, desobrigo-me do que teria ido fazer e retornei para o interior da casa em estado de choque, feliz abalado, e sem mais demoras vim atender ao chamado (já impaciente) para que fosse me deitar. Que lavasse as mãos, pés, escovasse os dentes. “E não se esqueça de cuidar pra não fazer xixi fora da bacia.” Ladainhas para o ofício noturno. Os palavrórios não me azucrinaram. Fui ao cumprimento das ordens indiferente sem relatar nada do que vira pra ninguém. Na transcendência da beatitude, do enleio sutil e frágil em que me transbordava não tinha prumo para me comunicar com nenhum humano naquela hora. Só me era dado o silenciar, o ativar-me veemente no gozo. Uma estrela do céu, ali vizinha, deixar-se pousada no chão, adormecida, assim a uma corridinha de casa, manifesta. Sem mais era ir para cama (obediente) e calar e dormir tácito emudecido sem bulício, nem o mais mínimo alarido para que ninguém desfizesse o inescrutável, inesperado, o inerme sortilégio da estrela em abandono, tão cerca. Amanheci às pressas. E misteriosamente saí à procura de minha estrela no chão, dormida ao relento, em depois do contorno da rua de casa. Vis-à-vis do fundo, pertinho. O terreno, baldio, se espichava, creio que até ao mar mais distante. Que horror insípido: ela não mais se achava à vista. Em toda a volta, olhei, não se encontrava. Não se encontrava. Não a divisaria mais, sabia-o, sentia, e desisti: do prosseguir em sua busca porque o local era perigoso em excesso, com cacos de louça, vidros asquerosos, assassinos, latas cortantes (enferrujadas até ao tétano), guaiamus ferozes, e teria que ter me aventurado em longa caminhada até a praia e o mar bravio longe.
Mas não maldigo. Não escrevo: “Ah! um urubu pousou na minha sorte.” Nunca. Eu que jamais havia (sequer) entressonhado que uma estrela do firmamento viesse, quietinha, se pôr ali pouco além do muro do nosso quintal, sem ruídos, para mim. Por uma noite, em criança, tive uma estrela que brilhou pela minha vida inteira.
(in Passagens, Ed. Luzes do Asfalto, São Paulo, 2008)
sexta-feira, 1 de julho de 2011
Giuseppe Ungaretti
POESIA
I giorni e le notti
suonano
in questi miei nervi
di arpa
vivo di questa gioia
malata di universo
e soffro
di non saperla
accendere
nelle mie parole.
POESIA
Os dias e as noites
dedilham
estes meus nervos
de harpa
nutro-me desta alegria
enferma de universo
e sofro
por não saber
iluminá-la
em minhas palavras.
(in Poesie disperse / Poemas dispersos, 1945)
(trad. joão monteiro)
I giorni e le notti
suonano
in questi miei nervi
di arpa
vivo di questa gioia
malata di universo
e soffro
di non saperla
accendere
nelle mie parole.
POESIA
Os dias e as noites
dedilham
estes meus nervos
de harpa
nutro-me desta alegria
enferma de universo
e sofro
por não saber
iluminá-la
em minhas palavras.
(in Poesie disperse / Poemas dispersos, 1945)
(trad. joão monteiro)
Salvatore Quasimodo
ANTICO INVERNO
Desiderio delle tue mani chiare
nella penombra della fiamma:
sapevano di rovere e di rose;
di morte. Antico inverno.
Cercavano il miglio gli uccelli
ed erano súbito di neve;
cosí le parole.
Un po' di sole, una raggera d'angelo,
e poi la nebbia; e gli alberi,
e noi fatti d'aria al mattino.
ANTIGO INVERNO
Desejo de tuas mãos claras
na penumbra da chama;
explicavam carvalhos e rosas;
morte. Antigo inverno.
Buscavam grão as aves
e de repente se punham neve;
assim as palavras.
Um pouco de sol, auréola de anjo,
e enfim a névoa; e as árvores,
e nós feitos de ar na manhã.
(in Acque e terra / Águas e terras, 1930)
(trad. joão monteiro)
imagem: “Retrato de Salvatore Quasimodo”, de Renato Birolli (1905-1959)
Desiderio delle tue mani chiare
nella penombra della fiamma:
sapevano di rovere e di rose;
di morte. Antico inverno.
Cercavano il miglio gli uccelli
ed erano súbito di neve;
cosí le parole.
Un po' di sole, una raggera d'angelo,
e poi la nebbia; e gli alberi,
e noi fatti d'aria al mattino.
ANTIGO INVERNO
Desejo de tuas mãos claras
na penumbra da chama;
explicavam carvalhos e rosas;
morte. Antigo inverno.
Buscavam grão as aves
e de repente se punham neve;
assim as palavras.
Um pouco de sol, auréola de anjo,
e enfim a névoa; e as árvores,
e nós feitos de ar na manhã.
(in Acque e terra / Águas e terras, 1930)
(trad. joão monteiro)
imagem: “Retrato de Salvatore Quasimodo”, de Renato Birolli (1905-1959)
quinta-feira, 30 de junho de 2011
Marina Tsvetáieva (2)
Como lágrima morna -
Uma gota nos olhos entorna.
De uma altura sem fim,
Alguém chora por mim.
(in Indícios flutuantes, trad. Aurora F. Bernardini, Martins Fontes, 2006)
Uma gota nos olhos entorna.
De uma altura sem fim,
Alguém chora por mim.
(in Indícios flutuantes, trad. Aurora F. Bernardini, Martins Fontes, 2006)
Marina Tsvetáieva
Beijar na testa - apagar o cuidado.
Beijo na testa.
Beijar nos olhos - tirar a insônia.
Beijo nos olhos.
Beijar nos lábios - matar a sede.
Beijo nos lábios.
Beijar na testa - apagar a lembrança.
Beijo na testa.
(in Indícios flutuantes, trad. Aurora F. Bernardini, Martins Fontes, 2006)
Beijo na testa.
Beijar nos olhos - tirar a insônia.
Beijo nos olhos.
Beijar nos lábios - matar a sede.
Beijo nos lábios.
Beijar na testa - apagar a lembrança.
Beijo na testa.
(in Indícios flutuantes, trad. Aurora F. Bernardini, Martins Fontes, 2006)
"Um cachorro vira-lata... mais está à procura de alimento e carinho"
"ROUBO – HABEAS CORPUS – PRISÃO EM FLAGRANTE – CONCURSO DE AGENTES – UTILIZAÇÃO DE UM CÃO COMO FORMA DE GRAVE AMEAÇA – INEXISTÊNCIA DA PROVA DO ATO OU DA GRAVE AMEAÇA – ACUSADOS QUE VINHAM DE UMA FESTA POPULAR EM COMPLETO ESTADO DE EMBRIAGUEZ -–INEXISTÊNCIA DOS REQUISITOS QUE INDICAM A NECESSIDADE DA PRISÃO CAUTELAR – Ordem concedida. Maioria.
Informam os autos que o acusado vinha de uma festa popular denominada Micarecandanga em completo estado de embriaguez, e que teria se apossado de pequenos valores de uma pessoa que por ele teria sido ameaçada.
No flagrante a autoridade policial informa que o acusado teria se valido de um cachorro como forma de ameaça à vítima, mas a peça não anota a sua raça, seu comportamento agressivo, ou se o mesmo pertencia realmente ao Pacte.
A versão constante do flagrante não se amolda com o que realmente aconteceu por ocasião do evento, pois se o Pacte. vinha às altas horas da madrugada de uma festa popular completamente embriagado na companhia de um amigo, também em elevado estado etílico, é algo absolutamente inverossímil que o mesmo tenha levado seu cão para a festa a fim de ameaçar a quem quer que seja, sendo francamente inconcebível a presença de um animado cachorro em plena multidão de foliões acompanhando seu dono no picante e movimentado ritmo da música baiana.
Os autos demonstram às escâncaras que o cachorro que acompanhou o Pacte. até a delegacia era um vira-lata comum e inofensivo, daqueles que comumente acompanham as pessoas, em especial os bêbados, de madrugada à espera de um carinho e quem sabe de algum alimento, e que jamais seria capaz de ameaçar a quem quer que seja, pois se o cão fosse realmente violento deveria ser descrito e apreendido pela autoridade, para posteriormente ser remetido ao Serviço de Zoonose do GDF.
Não há nos autos nada que demonstre a existência quer do ato descrito no flagrante ou mesmo da violência ou da grave ameaça que teria sido praticadas contra a vítima, e o cachorro que acompanhou o Pacte. até a Delegacia, onde segundo a autoridade ficava andando de um lado para o outro no pátio com o rabo abanando, em nenhuma hipótese pode configurar-se como meio idôneo para ameaçar a quem quer que seja, pois à toda sabença um cachorro vira-lata que vive a percorrer as ruas de madrugada mais está à procura de alimento e carinho do que meter-se em confusão.
Inocorrendo, no caso em comento, qualquer das hipóteses do art. 312, do CPP, deve o Pacte. responder em liberdade a ação penal que lhe está sendo movida.
Ordem concedida. Maioria."
(ementa de acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, no julgamento do "habeas corpus" n. 2001.00.2.005779-0, em 4 de outubro de 2001)
LINK para o inteiro teor:
http://tjdf19.tjdft.jus.br/cgi-bin/tjcgi1?DOCNUM=1&PGATU=1&l=20&ID=62274,12922,2111&MGWLPN=SERVIDOR1&NXTPGM=jrhtm03&OPT=&ORIGEM=INTER
foto: http://sobreorisco.blogspot.com/2009_08_01_archive.html
Informam os autos que o acusado vinha de uma festa popular denominada Micarecandanga em completo estado de embriaguez, e que teria se apossado de pequenos valores de uma pessoa que por ele teria sido ameaçada.
No flagrante a autoridade policial informa que o acusado teria se valido de um cachorro como forma de ameaça à vítima, mas a peça não anota a sua raça, seu comportamento agressivo, ou se o mesmo pertencia realmente ao Pacte.
A versão constante do flagrante não se amolda com o que realmente aconteceu por ocasião do evento, pois se o Pacte. vinha às altas horas da madrugada de uma festa popular completamente embriagado na companhia de um amigo, também em elevado estado etílico, é algo absolutamente inverossímil que o mesmo tenha levado seu cão para a festa a fim de ameaçar a quem quer que seja, sendo francamente inconcebível a presença de um animado cachorro em plena multidão de foliões acompanhando seu dono no picante e movimentado ritmo da música baiana.
Os autos demonstram às escâncaras que o cachorro que acompanhou o Pacte. até a delegacia era um vira-lata comum e inofensivo, daqueles que comumente acompanham as pessoas, em especial os bêbados, de madrugada à espera de um carinho e quem sabe de algum alimento, e que jamais seria capaz de ameaçar a quem quer que seja, pois se o cão fosse realmente violento deveria ser descrito e apreendido pela autoridade, para posteriormente ser remetido ao Serviço de Zoonose do GDF.
Não há nos autos nada que demonstre a existência quer do ato descrito no flagrante ou mesmo da violência ou da grave ameaça que teria sido praticadas contra a vítima, e o cachorro que acompanhou o Pacte. até a Delegacia, onde segundo a autoridade ficava andando de um lado para o outro no pátio com o rabo abanando, em nenhuma hipótese pode configurar-se como meio idôneo para ameaçar a quem quer que seja, pois à toda sabença um cachorro vira-lata que vive a percorrer as ruas de madrugada mais está à procura de alimento e carinho do que meter-se em confusão.
Inocorrendo, no caso em comento, qualquer das hipóteses do art. 312, do CPP, deve o Pacte. responder em liberdade a ação penal que lhe está sendo movida.
Ordem concedida. Maioria."
(ementa de acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, no julgamento do "habeas corpus" n. 2001.00.2.005779-0, em 4 de outubro de 2001)
LINK para o inteiro teor:
http://tjdf19.tjdft.jus.br/cgi-bin/tjcgi1?DOCNUM=1&PGATU=1&l=20&ID=62274,12922,2111&MGWLPN=SERVIDOR1&NXTPGM=jrhtm03&OPT=&ORIGEM=INTER
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