sábado, 30 de julho de 2011

Estamira e o Comunismo Superior

Estamira (Marcos Prado)

Estamira, protagonista do documentário de estreia de Marcos Prado, faleceu na última quinta-feira (28.7.11):


Waly Salomão

OCA DO MUNDO


dia sim dia não
noite não noite sim
o mesmo pesadelo
e o marasmo do seu padrão

a floresta cantante nos provoca calafrios
todos os sentenciados eram pendurados nos ganchos
uivos e guinchos e gritos e homens pensos como jacas maduras
verrugas dos sentidos dedurados nos quatro pontos cardeais
caimãs simulavam pirogas
tucanos morcegavam rasantes
corujas e bacuraus invocavam arrepios
abraços de tamanduá-açu
bigornas de aço de arapongas
cataratas desfocavam o cruzeiro do sul
painéis de capoeiras
e blocos de matas desciam cipós de circuitos fechados
olheiros do comando de macaco-prego
manipulavam as glandes das suas pirocas
como se fossem câmaras de vídeo-vigilância
floresta cantante inenarrável
cuja nesga narrável não figurava nunca nada de verossímil

dia sim dia não
noite não noite sim
o mesmo pesadelo
e o marasmo do seu padrão


(in pescados vivos, Rocco, Rio de Janeiro, 2004)

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Tema e variação

No anverso da história
mora a sombra dos sentidos.
O verso do sentido
é a sombra da história.
Inverte-se a História
em versos de sombra,
a sombra sem história
é o próprio sentido.

(in gavetário)

Casa própria

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Mario Benedetti (2)

Tampoco


Nadie lo sabe
nadie


ni el río
ni la calle
ni el tiempo

ni el espía
ni el poder
ni el mendigo

ni el juez
ni el labriego
ni el papa

nadie lo sabe
nadie

yo tampoco


(in Remontar la noche)

José Paulo Paes (3)

Celebridade

(para Raduan Nassar)


Eu sou o poeta mais importante
da minha rua.

(Mesmo porque a minha rua
é curta.)


(in socráticas, Companhia das Letras, 2001)