sábado, 30 de junho de 2012
Marina Tsvetáieva
Beijar na testa - apagar o cuidado.
Beijo na testa.
Beijar nos olhos - tirar a insônia.
Beijo nos olhos.
Beijar nos lábios - matar a sede.
Beijo nos lábios.
Beijar na testa - apagar a lembrança.
Beijo na testa.
Beijo na testa.
Beijar nos olhos - tirar a insônia.
Beijo nos olhos.
Beijar nos lábios - matar a sede.
Beijo nos lábios.
Beijar na testa - apagar a lembrança.
Beijo na testa.
(in Indícios flutuantes, trad. Aurora F. Bernardini, Martins Fontes, 2006)
sexta-feira, 29 de junho de 2012
ação-inação
desenho
ritos
sobre
o branco
com
folhas sopradas sem cor
(soçobram
sentidos
azuis)
avento
formas
reviradas
nas
cores de tema nenhum
(precipitam
brancos
iluminados)
rasgo
folhas
dissentidas
por
um vento cardeal
(azulam
sentidos
sem
luz)
reviro
ritos
sob
as folhas
para
sobrar em canto algum
Anna Akhmátova
Para N. V. N.
Dentro de cada ser há um segredo
a que nem a paixão consegue acesso,
inda que os lábios fundam-se num beijo
e o coração de amor se despedace.
Os anos e a amizade incapazes
são de obter a ventura calcinante,
quando a alma liberta é estrangeira
à lenta lassidão voluptuosa.
Os que a procuram já são quase loucos.
Os que a alcançam, mata-os a tristeza...
Agora tu entenderás por que
meu coração não pulsa em tuas mãos.
Maio de 1915
Petersburgo
(in Antologia Poética, trad. Lauro Machado Coelho, Porto Alegre, L&PM, 2009)
Dentro de cada ser há um segredo
a que nem a paixão consegue acesso,
inda que os lábios fundam-se num beijo
e o coração de amor se despedace.
Os anos e a amizade incapazes
são de obter a ventura calcinante,
quando a alma liberta é estrangeira
à lenta lassidão voluptuosa.
Os que a procuram já são quase loucos.
Os que a alcançam, mata-os a tristeza...
Agora tu entenderás por que
meu coração não pulsa em tuas mãos.
Maio de 1915
Petersburgo
(in Antologia Poética, trad. Lauro Machado Coelho, Porto Alegre, L&PM, 2009)
Nelson Ascher
Pensando bem
Pensando bem malgrado
termos chegado sobre
o assunto em pauta a pontos
de vista não opostos
é claro mas decerto
distintos mesmo assim
eu fundamentalmente
concordo com você
porém como esses pontos
de vista embora nem
de todo opostos mesmo
assim trazem à tona
idéias diferentes
pensando bem talvez
eu não concorde sempre
em tudo com você
aliás dado que nossos
pontos de vista envolvem
idéias não de todo
é claro diferentes
pensando bem discordo
assim mesmo nem sempre
nem necessariamente
em tudo de você
discordo não porque
no assunto em pauta nossos
pontos de vista sejam
diametralmente opostos
mas já que suas idéias
são não só diferentes
como imbecis pensando
bem foda-se você.
(in Parte alguma: poesia (1997-2004), São Paulo, Companhia das Letras, 2005)
Pensando bem malgrado
termos chegado sobre
o assunto em pauta a pontos
de vista não opostos
é claro mas decerto
distintos mesmo assim
eu fundamentalmente
concordo com você
porém como esses pontos
de vista embora nem
de todo opostos mesmo
assim trazem à tona
idéias diferentes
pensando bem talvez
eu não concorde sempre
em tudo com você
aliás dado que nossos
pontos de vista envolvem
idéias não de todo
é claro diferentes
pensando bem discordo
assim mesmo nem sempre
nem necessariamente
em tudo de você
discordo não porque
no assunto em pauta nossos
pontos de vista sejam
diametralmente opostos
mas já que suas idéias
são não só diferentes
como imbecis pensando
bem foda-se você.
(in Parte alguma: poesia (1997-2004), São Paulo, Companhia das Letras, 2005)
Adília Lopes (2)
A CURA
1
O poema
é mais emblema
que lema
no meu deixo
uma lesma
sempre a mesma
lesma é o meu lema
2
O poema não é
forma de bolo
é barca de tolo
(o tolo saúda o velho mar
a seguir despede-se ou despe-se)
3
O poema é
esconjuro do escuro
ao meio-dia
coisa de Kepler
e de bruxas
(eclipses e elipses)
4
Vão-se os poemas
fique o poeta
por muito pateta
para bater na neta
5
a ira
pôs-me a dançar
o vira
(só a coitada
fica sentada)
(in Antologia, São Paulo, Cosac & Naify / Rio de Janeiro, 7 Letras, 2002)
1
O poema
é mais emblema
que lema
no meu deixo
uma lesma
sempre a mesma
lesma é o meu lema
2
O poema não é
forma de bolo
é barca de tolo
(o tolo saúda o velho mar
a seguir despede-se ou despe-se)
3
O poema é
esconjuro do escuro
ao meio-dia
coisa de Kepler
e de bruxas
(eclipses e elipses)
4
Vão-se os poemas
fique o poeta
por muito pateta
para bater na neta
5
a ira
pôs-me a dançar
o vira
(só a coitada
fica sentada)
(in Antologia, São Paulo, Cosac & Naify / Rio de Janeiro, 7 Letras, 2002)
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